Após perder pai e irmão para covid, Santiago tenta superar as sequelas do coma

Internado no mesmo dia em que o pai foi enterrado, o porteiro só ficou sabendo da morte do irmão após acordar de coma induzido

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Por Aletheya Alves | 13/02/2021 10:22 - CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS

A covid-19 surgiu como uma queda livre na vida de José Santiago Gomes Neto. Levou o pai, matou o irmão e deixou sequelas no próprio corpo. Na semana que passou, o aniversário de 41 anos não teve a menor graça, foi mesmo um dia de saudade. Ainda em fase de recuperação em Campo Grande, o porteiro conta que as marcas do vírus permanecem, tanto em forma de lembrança, quanto nas cicatrizes e sequelas físicas.

Mesmo com as datas ainda embaralhadas na cabeça, Santiago não esquece que foi internado no mesmo dia em que o pai foi sepultado em decorrência da covid. Ele explica que entre setembro e outubro do ano passado, ele e outras seis pessoas da família foram diagnosticadas com coronavírus

No começo de outubro fiz o exame, aí internei no dia 7. Foi na mesma data em que meu pai estava sendo enterrado", narra Santiago.

O pai, Eurico Santiago Gomes, tinha 84 anos e fumava. Cerca de 15 dias depois da morte dele, o irmão Eurico Santiago Brites, de 46 anos, também não resistiu à doença. Nesse tempo, José Santiago já havia sido sedado e traqueostomizado. Em coma, ele nem imaginava a nova perda provocada pela doença. “Só fiquei sabendo depois que eu sai do hospital”.

Conforme Santiago, cada pessoa da família reagiu à doença de forma diferente. As duas primeiras confirmações vieram com a mãe e a irmã, ambas precisaram ser internadas por uma semana no Hospital Regional. Liberadas, o pai foi internado e em quatro dias faleceu. Antes disso, o irmão também havia sido internado, ficou 30 dias no hospital, antes de ser levado pela doença.

Já Santiago ficou mais de um mês imerso na rotina imposta pelo coronavírus. Primeiro, teve o Hospital Regional como socorro temporário e logo depois foi transferido ao Hospital do Pênfigo. “Eu já estava ruim quando meu pai morreu, (a doença) pegou quase a família toda”, reforça.

Sintomas atemporais - Passados 3 meses da alta hospitalar, Santiago está de volta ao trabalho, mas ainda longe de ficar 100%. “Quando recebi alta, não conseguia andar, precisava de ajuda, tinha muita dor no corpo, no estômago e nas costas. Saí de lá com o ombro meio travado, meus pés moles e tomei uns quatro tombos depois. Ainda sinto muito cansaço.  Ainda sinto dores, tenho um pouco de tortura. Tenho que tomar cuidado para não cair, quando preciso sair tenho que ir com calma”, diz.

Ele também destaca que ao acordar do coma induzido, o mundo parecia mais confuso do que antes. “A gente acorda muito atrapalhado, eu tive pesadelos de que estava em um hospital no Interior e achava que estava lá. Depois, acordado, achei que estava em Dois Irmãos do Buriti. Só quando meu outro irmão foi me visitar que entendi que estava em Campo Grande”, revela.

Santiago aponta para o ombro relembrando dor após acordar do coma induzido.
Depois do tsunami provocado pela covid, o porteiro diz que tem tentado retomar a vida aos poucos.,  “A gente tenta não ficar se torturando, tenta esquecer, superar tudo isso”.

Depois das lágrimas, ele lembra que ser recepcionado no serviço com apoio dos moradores é uma das coisas que o mantém tentando seguir. "Me senti acolhido. Isso ajuda muito".

Mesmo assim, os domingos de almoço depois do coronavírus não vão mais ser completos. “A gente tenta viver normalmente. Não com muita alegria devido ao que passou. A família continua unida, mas não é a mesma coisa. A gente tenta esquecer”.

 CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS

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Autor: Web Rádios

Data: 13/02/2021 20:31

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